Por vezes no YouTube encontras aqueles anúncios que te prometem “soluções mágicas” para problemas que parecem impossíveis de resolver — por exemplo, o anúncio diz-te que consegues pagar a tua dívida universitária em apenas seis meses ou que consegues completar um doutoramento em meio ano, ou alguma coisa mirabolante deste género. Bom, a maior parte das vezes, estes anúncios são burlas (malditos sejam, anúncios falsos do YouTube que me convenceram que conseguia obter um fornecimento vitalício de manteiga de amendoim apenas por preencher uma sondagem estúpida qualquer) mas a ideia por detrás deles costuma ser bastante aliciante. Dito isto, se existissem anúncios do YouTube relacionados a debate, eles provavelmente diriam algo como “como vencer todos os debates em que alguma vez competires” ou “como obter speaks excelentes de forma consistente” ou “como fazer o adjudicador querer casar-se contigo por ficar impressionado com as tuas capacidades de debate”. Infelizmente, provavelmente não existe nenhuma forma de fazer estas coisas acontecerem com um estalar de dedos, por isso, tragicamente, também estes anúncios seriam, mais uma vez, mentira. No entanto, há boas notícias! Existe um produto da vida real que pode não garantir estes resultados mágicos mas certamente se aproxima deles: weighing¹.
O problema com a maior parte dos debates é que eles tendem a seguir o seguinte padrão: as equipas de governo listam uma série de argumentos e apresentam um conjunto de respostas razoáveis para os casos do outro lado. As equipas de oposição, por sua vez, também apresentam uma lista de argumentos e também apresentam um conjunto de respostas razoáveis para os casos dos governos. O problema é que, chegando ao fim da ronda, os adjudicadores são, infelizmente, colocados numa posição bastante difícil: ambos lados apresentaram material plausivelmente correcto, então como é suposto que os adjudicadores avaliem a persuasividade relativa de argumentos diferentes sem se inserirem na ronda²? Como é que, por outras palavras, um adjudicador consegue avaliar qual é o conjunto de argumentos e respostas mais valioso no debate? Sem instruções explícitas dos debatedores, os adjudicadores acabam a ter de responder a estas questões por conta própria.
Vamos tornar isto mais claro — como é que isto se parece num debate real? Imagina uma moção como “Esta Casa aboliria os TPCs”, a moção mais clássica que poderias possivelmente imaginar. O Governo apresenta um argumento bastante plausível sobre como os TPCs causam stress e limitam o tempo livre dos estudantes. A Oposição apresenta um argumento igualmente persuasivo sobre como TPCs preparam estudantes para as suas carreiras académicas e vocacionais no futuro. No final deste debate, vamos assumir que ambas afirmações ficam relativamente intactas, ou seja, que nenhuma refutação de ambos os lados foi capaz de efetivamente destruir os argumentos da equipa oposta. Como é suposto um adjudicador avaliar esta ronda? Qual destas afirmações se supõe mais influente para determinar um vencedor? De que forma se espera que um adjudicador avalie a importância relativa ou o valor destes argumentos?
Este é o dilema presente na maioria dos debates: as equipas fazem um bom trabalho em provar e impactar os seus argumentos, e até em refutar os argumentos dos seus oponentes, mas raramente fazem um trabalho tão bom em explicar a importância comparativa dos seus argumentos — por outras palavras, as equipas não passam tempo suficiente a explicar porque é que os seus argumentos são mais importantes em comparação com os argumentos apresentados pelo outro lado.
E quando as equipas não fazem esta análise comparativa, quando elas não pausam para perguntar (e responder) porque é que os seus argumentos importam mais do que os dos seus oponentes, elas não necessariamente perdem de forma automática ou se condenam a obter speaks horrendos — simplesmente deixam as coisas nas mãos do destino. Elas dão ao adjudicador demasiado poder para determinar o resultado de uma ronda.
Ora, por mais que tu devas, enquanto debatedor, amar, apreciar e agradecer ao teu adjudicador, não existe, talvez, nada mais aterrador do que dar-lhe demasiado poder para decidir como a ronda é adjudicada. É basicamente deixá-lo atirar uma moeda ao ar — visto que, muito como o lançamento da moeda ao ar no BP para determinar a moção e posições, isto raramente ocorre a teu favor.
O que descrevemos até agora quase que soa como o esboço de um enredo de um filme de terror de debate: passas quinze minutos a arranjar um caso bem justificado, bem substanciado e bem impactado. A tua apresentação do caso é excelente, as provas que usas são amplas e abundantes. Respondes, pontinho por pontinho, aos teus oponentes, introduzes e concluis o teu discurso com alguma genialidade retórica. Ainda assim, chegando ao final, mal conseguiste obter uma probabilidade de 50% de ganhar a ronda.³
É aqui que entra o weighing. Francamente, inúmeros debatedores dizem entender weighing e até afirmam que fazem weighing nos seus discursos, e no entanto, na sua grande maioria, não o fazem. Então vamos lá desempacotar este conceito de “weighing” e ilustrar como ele se parece.
O que é Weighing?
“Weighing” é a arte subtil de explicar porque é que certos argumentos importam mais do que outros argumentos — ou, em suma, weighing é a arte de explicar porque é que o teu material deveria importar mais para o debate do que o material apresentado pelos teus oponentes. Para explicar isto, comecemos com um exemplo louco e extremo. Imagina que estás a ter conversar com um amigo e ele diz “devíamos ir ao McDonald’s porque a comida deles é barata e deliciosa” e tu respondes “em vez disso deveríamos ir ao Burger King porque o McDonald’s tem um programa secreto de armas nucleares localizado na cave do Fort Knox e quando comermos no McDnonald’s estaremos a ser moralmente cúmplices em contribuir para o início da Terceira Guerra Mundial.”
Presumivelmente, o teu amigo olhará para ti com um olhar confuso, depois com um olhar horrorizado, depois com um ar de preocupação, e começará a fazer-te perguntas do género “porque raio achas que isso é verdade?” ou “tens alguma prova disso sequer?” ou “porque é que és sempre assim?” ou “vês o McDonald’s na sala contigo neste momento?” Mas vamos analisar isto um pouquinho, pode ser? Porque é que o teu amigo olharia para ti com um olhar confuso? Porque é que não concordaria imediatamente com um aceno da cabeça, diria alguma coisa sobre urânio enriquecido nas batatas fritas e escolheria dirigir-se imediatamente para o Burger King? Bom, intuitivamente, poderia o McDonald’s estar a planear tomar controlo do mundo através do desenvolvimento de um arsenal nuclear altamente sofisticado? Isto é sequer teoricamente possível? Ora, tecnicamente sim… Mas obviamente, é incrivelmente improvável! É absurdamente desprovido de sentido! A probabilidade do McDonald’s fazer tudo isto bem que poderia ser zero, visto que isto é obviamente falso!
Então, se isto fosse um debate competitivo, será que a maioria dos adjudicadores seria persuadida pela tua teoria McDonald’s-Nuclear? Não! Porquê? Bom, o teu argumento é altamente improvável, ainda que a potencial magnitude do seu impacto seja bastante elevada! Assim, é provável que o teu argumento seja visto como implausível! Então quando um adjudicador compara “comprar no McDonald’s é imoral porque estaríamos a apoiar uma guerra nuclear” com “comprar no McDonald’s é delicioso e barato”, podemos assumir que a maioria dos adjudicadores priorizaria a segunda afirmação à primeira. A razão para esta priorização é que um argumento (sabor e acessibilidade) é mais plausível e mais provável do que o outro (guerra nuclear).
Piadas à parte, tudo isto serve para dizer que weighing é o processo de explicar como os teus argumentos são comparativamente mais relevantes do que os restantes argumentos no debate. Claro está que o exemplo que acabamos de analisar é um pouco ridículo. Assim sendo, sejamos mais realistas. Imaginemos que temos um debate real, algo como “Esta Casa Acredita Que sanções fazem mais mal do que bem”. Este é um bom exemplo de uma moção onde ambos os lados têm argumentos bastante claros, razoáveis e plausíveis. Talvez o governo escolha falar sobre como sanções afetam de forma desproporcional as pessoas mais vulneráveis, e talvez a oposição escolha discutir como sanções criam pressão em regimes para que estes mudem. Se estes argumentos forem apresentados, os adjudicadores terão muita dificuldade em determinar qual deles é mais importante, talvez.
Talvez o governo possa dizer que o seu argumento é mais importante do que o da oposição considerando a sua probabilidade. O governo pode dizer: reparem, no fim das contas, é bastante difícil derrubar ou mudar um regime. As elites políticas são bastante isoladas face a pressões externas, normalmente consolidam poder e influência à volta delas e têm incentivos para não parecerem fracas. Assim sendo, quão provável é que sanções consigam promover alguma forma de mudança real? Quiçá, muito pouco! Comparativamente, o governo pode dizer que, ainda que seja bastante improvável que sanções consigam promover alguma mudança no regime, é muito mais provável que elas causem danos colaterais, por exemplo em comunidades pobres, o que, consequentemente, significa que a probabilidade de as sanções terem malefícios é maior do que a probabilidade de elas gerarem benefícios.
Talvez a oposição possa dizer que o seu argumento é mais importante do que o do outro lado considerando a sua dimensão. A oposição pode dizer: reparem, no fim das contas, sanções costumam ser aplicadas contra governos com problemas significativos no que toca a direitos humanos ou igualdade legal. Talvez as sanções prejudiquem pessoas vulneráveis, mas é provável que a situação destas pessoas já seja bastante má, e portanto, as implicações mais sérias e significativas das sanções sejam os seus impactos nas elites. Assim sendo, quando as sanções são bem sucedidas, o impacto das mudanças produzidas por elas é bastante maior do que o impacto das mudanças que são produzidas quando elas falham.
Isto é uma ilustração melhor de como
weighing
se parece no contexto de um debate real: cada equipa apresenta
argumentos a explicar porque é que o seu material deve ser
priorizado em relação ao material apresentado pela outra equipa. O
que é o weighing,
ao certo? É uma explicação de como um argumento importa mais do
que outro. Há três grandes arquétipos clássicos de weighing
em debate — ou por
outras palavras, três métricas tradicionais que as pessoas usam
para comparar as suas afirmações: magnitude, probabilidade e espaço
temporal. Nós vamos analisar essas três métricas e explicar o que
significam, como são usadas e porque importam. No entanto, antes
disso, há algumas coisas que importam destacar no que toca a
weighing
eficaz:
- Primeiramente, weighing é fundamentalmente diferente de refutação. Muitas pessoas têm a tendência de confundir as duas coisas, e isso até é justo — faz sentido agrupá-las! Ainda assim, refutação e weighing servem propósitos diferentes. Refutação é uma forma de desconstruir uma afirmação – por outras palavras, descrever, mitigar ou fazer flip⁴ a um argumento. Weighing é uma forma de comparar afirmações opostas e explicar a sua importância relativa — por outras palavras, elucidar a insignificância relativa de um argumento, mesmo que esse argumento não possa ser desprovado ou mitigado ou não dê para flipar. Refutação é o que fazes quando dizes “este argumento está errado”. Weighing é o que fazes quando dizes “mesmo que o argumento deles não esteja errado, aqui está porque o nosso argumento continua a ser mais importante.”
- Segundamente, weighing
é, pela sua própria
natureza, desconfortável — e isso não tem mal, pois esse é o seu
trabalho e propósito! A razão pela qual inúmeras pessoas evitam
fazer weighing
é porque lhes parece errado: parece desapropriado aceitar que
talvez, só talvez, o outro lado esteja certo, e parece arriscado
aceitar explicitamente as premissas basilares dos argumentos da
equipa oposta. No entanto, é exatamente por isto que weighing
é tão útil: weighing
toma a melhor versão
possível do caso do outro lado e explica porque é que, mesmo na sua
iteração mais caridosa, tu continuas a vencer o debate. Deste modo,
weighing
é como uma apólice de seguro para o teu caso: quando refutas um
argumento, estás basicamente a explicar ao adjudicador que o
argumento do outro lado é errado ou insignificante ou na verdade
benéfico para o teu lado, então quando fazes refutação eficaz,
estás (teoricamente) a proteger-te contra os argumentos do outro
lado. Weighing
é uma segunda forma de lidar com estes argumentos: mesmo
que o adjudicador não
compre as tuas refutações ou não credite as tuas respostas,
ainda consegues
vencer fazendo
weighing
dos teus argumentos de forma a provar que eles são mais importantes
ou significativos.
- Terceira e finalmente, weighing
é, no final das
contas, um argumento e tal como qualquer outro argumento, weighing
requer nuance, racionalidade e justificação.
Weighing não é um
conceito estranho e sombrio que feiticeiros e feiticeiras aprendem no
seu quinto ano de Hogwarts — weighing
é um tipo de
argumentação, tal como refutação é uma forma de argumentação
(simplesmente, argumentação “inversa”!).
Magnitude
Tal como um vilão animado famoso uma vez disse “O meu nome é Vector: é um termo matemático, uma quantidade representada por uma seta com direção e magnitude.” Infelizmente, este tipo de magnitude é um pouco diferente da magnitude discutida nas aulas de física, ainda que, de certa forma, estas coisas não sejam assim tão diferentes.
Basicamente, “magnitude” simplesmente significa “quão grande alguma coisa (por exemplo, um impacto!) é”. Na debatelândia esta é uma das métricas de weighing mais comuns, maioritariamente porque na vida real as pessoas costumam acabar por recorrer por default a questões de escala ao decidir entre diferentes escolhas. Em geral, há duas formas dominantes/gerais através das quais magnitude é usada como uma métrica de weighing em debate: Em primeiro lugar, podes frequentemente comparar o número de pessoas impactadas por certos argumentos. Isto é bastante simples: quando estás a fazer weighing de argumentos podes apontar o facto de o teu argumento impactar um número maior de pessoas do que o argumento do outro lado. Segundamente, também podes comparar a intensidade dos impactos de certos argumentos: qual impacto tem uma escala maior⁵ do que outro impacto? Responder a esta pergunta poderá ser útil — porque o mero número de pessoas afectadas por um argumento não é a única coisa que importa!
Probabilidade
A ideia do weighing de probabilidade é, na verdade, bastante simples: qual coisa é mais provável de ser verdadeira? A noção de probabilidade, no contexto de um debate, não é de todo diferente do conceito de probabilidade presente, por exemplo, nas tuas aulas de matemática! A única coisa que estás a fazer quando falas sobre weighing de probabilidade é explicar porque é que os teus argumentos, ou os teus mecanismos/razões são provavelmente mais verdadeiros em comparação com o que quer que o outro lado tenha dito!
Escala temporal
Ah,
o favorito de todos — o clássico “o nosso argumento funciona no
longo prazo mas o deles não!”
Weighing
de temporalidade é uma das velhas (sem trocadilhos) táticas de
weighing:
o objectivo é, simplesmente, demonstrar que o teu argumento/impacto
é mais duradouro em comparação com o argumento/impacto apresentado
pelo teu oponente!
Texto traduzido por Bee Barbosa em homenagem a Ryan Lafferty
Texto original disponível aqui
Notas da tradutora:
¹ Neste momento ainda não existe um consenso alargado no movimento de debates português sobre a melhor tradução de “weighing”. Enquanto que eu poderia recomendar usarmos os termos “sopesamento” ou “ponderação”, frequentes nos circuitos brasileiro e hispanohablantes, respectivamente, para este texto decidi usar a expressão em inglês em vez de forçar o circuito a aceitar uma de duas traduções ainda não consensuais.
² Quando o Ryan fala sobre um dado adjudicador se inserir na ronda, está a aludir à expressão “being insertive”, prática pouco recomendada a adjudicadores. Por “inserting themselves into the round” (a expressão que estou a traduzir) entendemos a prática de adjudicar um debate recorrendo às nossas preferências lógicas e morais (o que consideramos inerentemente mais plausível e importante) em vez de comparar as razões apresentadas pelas equipas para algo ser plausível ou importante.
³ Este texto poderá ter sido escrito para um formato com apenas duas equipas, como APDA ou Schools (WSDC), por isso a probabilidade aqui apresentada ser 50% e não 25%
⁴ O DCU português ainda não tem uma tradução consensual de flip, por isso deixei no inglês original. Para uma breve explicação, flipar um argumento significa cooptar os impactos do mesmo provando que eles são melhor cumpridos do nosso lado
⁵ Aqui o Ryan usa a expressão “greater scale” que contextualmente em inglês pode ser interpretada como “o quão impactado um dado ator é”, como achei que esta secção poderá parecer insuficiente para gente mais iniciada deixo aqui uma breve nota sobre intensidade explicando que por vezes importa entender que impactos não têm a mesma escala de intensidade para atores diferentes. Por exemplo, o rendimento básico universal pode tanto permitir que trabalhadores tenham uma maior facilidade de negociar salários e condições laborais com os seus patrões como também permitir que mulheres tenham alguma forma de maior independência financeira. Se eu quiser falar da escala de intensidade destes impactos posso fazer alguma caracterização sobre como más condições laborais ou salários baixos afetam o bem estar dos trabalhadores ou então demonstrar como a falta de independência financeira dificulta que mulheres consigam sair de relações problemáticas. Dependendo da intensidade de sofrimento apresentada a cada um destes atores, eu posso fazer weigh do impacto que se verifica sobre eles como mais importante. Num exemplo mais simples e confrontacional, num dado debate sobre “EC nacionalizaria toda a habitação” eu posso explicar como não ter casa afeta o acesso de uma pessoa a uma vida digna e explicar que, comparativamente, um senhorio já tem uma vida digna e apenas estaria a perder um rendimento extra. A partir daqui posso fazer weigh sobre como, mesmo que oposição tenha razão e alguns senhorios fiquem sem rendimento, o meu impacto de dar casa a pessoas que previamente não tinham nenhuma importa mais do que retirar a capacidade de um senhorio explorar uma segunda casa.
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