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11# Gerar Argumentos

Visão Geral

Este documento foca-se num objetivo específico: gerar conteúdos - ou seja, ter ideias de argumentos durante o prep time. Para conselhos sobre como estruturar ou formatar argumentos, ou sobre como torná-los mais persuasivos e difíceis de refutar, consulta outros documentos e apontamentos.

Conselhos Básicos

Por mais óbvio que pareça, em algum momento do prep time deves reservar um ou dois minutos para pensar simplesmente nos argumentos mais evidentes. O objetivo é construir uma lista de ideias muito óbvias, muito intuitivas e relativamente fáceis de provar. Aqui estão algumas perguntas que te podem ajudar a descobri-las:

  • Se uma pessoa qualquer na rua ouvisse (e percebesse) esta moção, qual seria a sua primeira reação?
    • Exemplo: Oposição em “Esta Casa tornaria obrigatória a representação significativa dos trabalhadores nos conselhos de administração de empresas cotadas em bolsa.” A pessoa comum reagiria provavelmente a dizer que os trabalhadores vão implesmente tomar más decisões quando representados nestes conselhos.
    • Exemplo: Governo em “Esta Casa criminalizaria políticos que deliberadamente enganam ou desinformam o público.” Qualquer pessoa diria logo que os políticos mentirem ao público é mau e devemos dissuadi-los de o fazer.
    • Exemplo: Oposição em “Esta Casa acredita que os media devem mostrar os horrores reais da guerra.” O que pensaria a pessoa comum? Provavelmente responderia que isso vai fazer com que as pessoas consumam menos notícias sobre conflitos - e isso pode ser transformado num argumento de oposição muito inteligente e criativo!
  • Se fosse um iniciado, qual seria o primeiro argumento que me viria à cabeça?
    • Exemplo: Oposição em “Esta Casa proibiria o discurso de ódio.”. Mesmo que o argumento não seja particularmente sofisticado, muitos iniciados argumentariam que esta medida funciona como um precedente perigoso e acabará por conduzir a erosões progressivas da liberdade de expressão
    • Exemplo: Oposição em “Quando os recursos são muito limitados, esta Casa acredita que os Estados devem promover ativamente a religião em zonas de grande pobreza.” O argumento mais óbvio que qualquer pessoa faria é simplesmente que isto é profundamente exploratório e ilegítimo em princípio
  • Se estivesse a conviver com amigos e um deles dissesse isto, qual seria a minha reação imediata, o teu instinto?
    • Exemplo: Oposição em "Esta Casa acredita que os países em desenvolvimento deviam restringir a emigração de trabalhadores altamente qualificados." Se alguém te colocasse isto a sério, reagirias provavelmente a dizer que isto parece, de forma intuitiva, moralmente duvidoso e injustificado.
    • Exemplo: Governo em "Esta Casa legalizaria a venda de gâmetas." A tua primeira reação seria talvez simplesmente dizer que o Estado não tem o direito de te proibir de vender componentes do teu próprio corpo.

Sempre que receberes uma moção, passa algum tempo a pensar em quem é afetado pelo tema (os stakeholders) - ou seja, quais são as partes interessadas e relevantes para responder a essa moção. Faz uma lista antes de começares a perceber como encaixam no debate: quando tiveres uma lista de quem é afetado pelo tema, podes começar a construir e a gerar argumentos com base nos atores relevantes. Aqui estão algumas estratégias úteis:

  • Olha para os stakeholders que estão claramente nomeados ou identificados na moção. É honestamente surpreendente a frequência com que as pessoas se esquecem de fazer isto.
    • Exemplo: Governo em "Esta Casa apoiaria a Iniciativa Cintura e Rota da China." Quase todos os debates sobre esta iniciativa se esquecem convenientemente de falar do ator mais óbvio envolvido… as pessoas que vivem na própria China.
    • Exemplo: Oposição em "Esta Casa acredita que os EUA devem dar uma garantia incondicional de defesa a Taiwan." Em quase todos os debates sobre Taiwan em que participei ou julguei, quase toda a gente argumentou sobre Taiwan - mas nunca fez argumentos sobre como Taiwan responderia a esta moção (por exemplo, declarando formalmente a independência).
  • Pensa nos atores e stakeholders que estão envolvidos no debate de uma forma ou de outra
    • Exemplo: "Esta Casa instituiria salários baseados no mérito em escolas do ensino básico e secundário." Com base numa brainstorming rápida, eis alguns atores que surgem imediatamente: professores, pais, alunos, diretores de escola, sindicatos de professores, governos locais e nacionais, agrupamentos de escolas.
    • Exemplo: "Esta Casa acredita que os movimentos sociais contemporâneos devem apelar ativamente à raiva." Eis alguns dos primeiros atores que podem surgir: ativistas, governos, empresas, manifestantes, eleitores, racistas e intolerantes, progressistas, partidos políticos, candidatos a cargos públicos, comunidades minoritárias, comunidades locais, forças policiais
  • Uma vez que tens uma lista de grupos envolvidos no debate, tenta subdividi-los e ver se há “atores dentro dos atores”:
    • Voltando à moção sobre remuneração por mérito para professores, pensa nos diferentes tipos de partes interessadas: professores (professores competentes, professores pouco eficazes, professores mal pagos, professores com vínculo definitivo), pais (pais muito envolvidos, pais mais descontraídos), alunos (alunos de alto desempenho, alunos com dificuldades, alunos médios), diretores de escola, sindicatos de professores (sindicatos com muito peso, sindicatos pouco influentes), governos locais e nacionais (governos progressistas, governos conservadores), agrupamentos de escolas (agrupamentos com poucos recursos, agrupamentos bem financiados).
    • Usando a moção sobre a incorporação da raiva nos movimentos de justiça social: ativistas (ativistas radicais, ativistas moderados, ativistas de minorias, ativistas "aliados", ativistas de sofá, ativistas nas redes sociais, ativistas com privilégios interseccionais), governos (governos conservadores, governos progressistas), empresas (empresas regressivas/conservadoras, empresas progressistas, empresas a tentar melhorar a sua imagem pública), manifestantes (manifestantes mais intransigentes, manifestantes pacíficos, manifestantes violentos), eleitores (centristas, independentes, eleitores de direita, eleitores de esquerda, eleitores apáticos, eleitores em círculos disputados, eleitores em círculos seguros), racistas e intolerantes, progressistas, partidos políticos (partidos maioritários, partidos pequenos), candidatos a cargos públicos (progressistas, conservadores), comunidades minoritárias, comunidades locais, forças policiais (forças grandes, forças pequenas).
  • Uma vez que tens uma lista bem desenvolvida de quem é afetado ou envolvido num tema, podes começar a descobrir como esses atores entram no debate e como podem ser afetados. As outras estratégias neste documento podem ajudar nisso, mas há algumas abordagens que funcionam especialmente bem:
    • A melhor estratégia é simplesmente colocares-te no lugar dessas partes interessadas e imaginares a sua provável reação à moção - isso conduz muito facilmente a argumentos com bastante rapidez.
    • Pensa também nos incentivos e interesses dos vários grupos ou pessoas afetados: o que querem? O que está dentro do seu interesse? O que lhes importa? O que os motiva a agir?
    • Não penses apenas em incentivos - pensa também em capacidade! O que é que alguém (por exemplo, um candidato em campanha) é realmente capaz de fazer? O que é que alguém (por exemplo, uma empresa) não consegue realmente fazer?

Pensa no que o outro lado vai argumentar e descobre como vais bater isso. Isto não quer dizer apenas que deves antecipar o outro lado - significa também que deves pensar em como os teus argumentos vão interagir com o material mais provável da equipa contrária. Há algumas coisas que podes querer fazer especificamente:

  • Descobre qual é provavelmente o melhor argumento do outro lado e constrói conscientemente o teu caso de forma a refutá-lo.
    • Exemplo: Governo em "Esta Casa lamenta o crescimento dos modelos de desenvolvimento de videojogos baseados no free-to-play." É muito provável que a Oposição argumente que os jogos free-to-play tornam os videojogos mais acessíveis a jogadores com menos posses - por isso, como equipa de Governo, faz sentido incluir na abertura alguns argumentos para lidar com isso, seja através de respostas antecipadas, seja com material positivo sobre a questão da acessibilidade.
    • Exemplo: Oposição em "Esta Casa opõe-se ao crescimento dos serviços de compra agora, paga depois como o Afterpay ou o Affirm." Podes razoavelmente antecipar que o Governo vai argumentar que estes serviços facilitam o gasto excessivo e encorajam as pessoas a gastar além das suas possibilidades. Como equipa de Oposição, pode ser inteligente construir argumentos que expliquem porque é que os consumidores vão, com toda a probabilidade, tomar decisões sensatas nestas plataformas.
  • Pensa em como os argumentos provavelmente vão evoluir ao longo do debate, e pondera se um argumento tem alguma resposta-killer óbvia que qualquer equipa competente vai usar.

Conselhos Mais Interessantes

Pensa sempre com muito cuidado na comparativa do debate - ou seja, o que o outro lado (ou o teu lado) está a defender. 

Em linguagem de debate, um ator (por exemplo, uma empresa, um governo) só faz alguma coisa quando tem o incentivo e a capacidade para o fazer. Por exemplo: posso ter o incentivo para criar milhares de apontamentos sobre debate, mas não tenho capacidade para o fazer - e, portanto, não o farei (preciso de ambos, mas só tenho um). Posso ter a capacidade de comer dez pizzas inteiras, mas não tenho incentivo para isso - e, portanto, também não o farei. Não tenho nem capacidade nem incentivo para investigar o que se sente ao ser sugado por um buraco negro - e, portanto, não vou fazê-lo. É apenas quando tens a capacidade e o interesse (incentivo) para fazer algo que realmente o fazes. Isto é muitas vezes muito útil para analisar moções de debate - podes fazer previsões razoavelmente fundamentadas sobre como diferentes grupos vão reagir a uma moção com base em se têm "capacidade" e "incentivo" para o fazer. A forma de transformar isto numa arma durante a prep é simples: pega num ator afetado pela moção e explica por que é que tem o incentivo e a capacidade para fazer algo bom ou mau, consoante o teu lado. Vejamos alguns exemplos:

  • Oposição em "Esta Casa nacionalizaria todas as empresas farmacêuticas privadas." Podes argumentar que os governos não têm nem a capacidade nem o incentivo para criar inovações médicas revolucionárias. Não têm o incentivo porque os políticos pensam a curto prazo - estão focados em ganhar as próximas eleições, o que os desincentiva a investir em I&D médica, que é extremamente exigente em tempo e recursos. Da mesma forma, não têm capacidade para este tipo de investigação inovadora porque os salários baixos no setor público, a impossibilidade de ser remunerado em opções de ações e as vantagens comparativas do setor privado vão afastar os melhores talentos da indústria farmacêutica. Os governos não têm, portanto, nem capacidade nem incentivo para fazer a investigação de ponta necessária para salvar vidas e criar novos tratamentos e curas.
  • Governo em "Esta Casa acredita que as democracias liberais devem apoiar financeiramente organizações que facilitam o processo de abandono da religião." No Governo, podes argumentar por que é que estas organizações são especificamente necessárias para ajudar as pessoas a ter capacidade de abandonar a religião, mesmo que tenham incentivo para o fazer. Por exemplo, podes dizer que muitas pessoas, mesmo aquelas com vontade de abandonar a sua fé, não têm capacidade de o fazer porque dependem financeiramente das suas comunidades religiosas e, por isso, precisam de apoio temporário - como o dessas organizações - para concluir o processo

Nas moções de agente (ou seja, moções em que "Esta Casa" já está definida como um ator específico), passa mesmo algum tempo a pensar nos interesses desse agente. É muito fácil assumir que os seus interesses são óbvios e intuitivos - mas analisar isso com cuidado, aprofundando um pouco mais, pode frequentemente dar origem aos melhores argumentos. Alguns exemplos:

  • Governo em "Esta Casa, como China (ou seja, o PCC), investiria fortemente em empresas russas." Assumindo que o principal interesse da China é a estabilidade económica interna - mas uma equipa de Governo mais esperta e criativa pode salientar que o PCC tem um historial claro de dar prioridade a considerações geopolíticas, como o poder e a hegemonia, em detrimento da prosperidade económica doméstica. Por exemplo, a postura agressiva do PCC relativamente a Taiwan quase certamente não está nos interesses económicos da China - mas está dentro dos seus interesses políticos e nacionalistas. Uma equipa de Governo realmente boa poderia então construir um caso inteiro sobre como este investimento serve os interesses geopolíticos da China (por exemplo, influência na Europa de Leste, acesso a portos de águas quentes no Mar Negro, ligações aos proxies russos no Médio Oriente, acesso a projetos de extração de recursos naturais financiados pela Rússia em África central) - e, mesmo que isto seja economicamente mau para a China, não é isso que a China mais valoriza.
  • Nota para oradores que fazem muitas moções de agente do tipo "Esta Casa, sendo um estudante...": Este conselho é especialmente útil nesse tipo de moções, que aparecem com uma frequência curiosa. Passa mesmo algum tempo a pensar no que o estudante médio realmente quer. Por exemplo: a grande maioria dos estudantes no mundo real - e não na bolha do debate onde alguns de nós (eu incluído) vivemos - não tem qualquer ambição real de entrar nas universidades mais seletivas do mundo. Desafia premissas como essa quando argumentas!

Texto traduzido por Madalena Carvalho em homenagem a Ryan Lafferty

Texto original disponível aqui.


 

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