O que é uma Moção Narrativa?
Estas moções tendem a ser redigidas no formato "EC apoia/EC opõe-se/ECL" e incluem, frequentemente, palavras como "glorificação", "narrativa" ou "crença". Alguns exemplos:
- ECL a narrativa de que a humildade é uma virtude.
- EC opõe-se à crença dominante de que frequentar a universidade é necessário para o sucesso na vida.
- EC apoia a glorificação do trabalho árduo.
- ECL a narrativa do "Sonho Americano".
- EC prefere um mundo com a norma de maximizar o lazer, em detrimento da norma de maximizar a produtividade.
O que é que é estranho nos Debates Narrativos?
Para começar, os debates narrativos raramente versam sobre a verdade de uma narrativa — claro que, nalguns casos, podem versar sobre se uma crença/norma subjacente é boa ou má (por exemplo, na moção "EC opõe-se à crença dominante de que frequentar a universidade é necessário para o sucesso na vida", pode haver algum debate sobre até que ponto frequentar a universidade é, de facto, necessário para o sucesso mais tarde na vida) — mas, na maioria dos debates em torno de narrativas, os argumentos devem centrar-se nas consequências dessas narrativas (por exemplo, se a sociedade está melhor ou pior por valorizar tanto o ensino superior), em vez da veracidade intrínseca dessas narrativas.
Na maioria dos casos, as moções narrativas são deliberadamente vagas e deliberadamente estranhas. Nem sempre é claro o que é que uma narrativa realmente significa ou como se manifesta na sociedade. E a razão para isso é intuitiva: as "narrativas" não crescem em árvores — não é como se, ao caminhar pela rua, as narrativas simplesmente pairassem no ar e penetrassem na nossa mente e ditassem as nossas decisões. Não — não é assim que as narrativas funcionam de todo! Em vez disso, a maioria das narrativas são crenças comuns que são reforçadas através das relações interpessoais, das conversas que temos com os outros, dos media que consumimos (por exemplo, os livros que lemos, os programas que vemos, as letras das músicas que ouvimos), ou dos planos de estudos académicos a que estamos expostos. Vejamos alguns exemplos disso:
Moção: "EC opõe-se à hustle culture." Qual é o aspeto desta hustle culture e como é que se espalha pela sociedade? Talvez a hustle culture não seja uma coisa específica, mas, sim, um conjunto de crenças — que nos são impostas através da publicidade, das normas sociais e dos media — que enfatizam como trabalhar arduamente de forma constante é virtuoso e valioso. Talvez a hustle culture seja a consequência de pessoas a gabarem-se do quão pouco dormem, a vangloriarem-se de beberem Red Bulls na noite antes de um exame ou a glorificarem o facto de estarem constantemente "em ação" e constantemente a trabalhar.
Moção: "ECL a glorificação da democracia." Qual é o aspeto desta glorificação da democracia? Como é que as pessoas chegam a glorificar a democracia? Mas também, onde é que essa glorificação realmente existe? Talvez a glorificação da democracia não seja universal — um camponês rural na China, por exemplo, provavelmente não acredita nessa narrativa! E talvez aqueles que estão verdadeiramente desencantados com a democracia e as suas falhas também não sejam os que propagam esta narrativa. Mas esta narrativa ainda efetivamente existe: existe quando os políticos transformam a beleza retórica da democracia numa arma e a utilizam como cortina de fumo/fachada para lançar invasões ou oprimir grupos específicos (à la invasão do Iraque). Esta narrativa é perpetuada pelos partidos, pelos media, pelo sistema educativo, que doutrina os estudantes na crença de que a democracia liberal ocidental é a forma superior de governo!
Os debates narrativos são frequentemente estranhos no sentido de que não é obviamente claro quanta mudança eles realmente criam. Nos debates sobre políticas, a mudança é clara: num mundo, uma política existe, e no outro mundo, essa política não existe. Mas, nos debates sobre narrativas, a mudança real nem sempre é óbvia. Tomemos como exemplo "EC opõe-se à narrativa de que frequentar a faculdade/universidade é necessário para o sucesso futuro". À primeira vista, isto pode parecer um debate sobre se frequentar a faculdade é bom ou mau — mas, na realidade, não é! E porquê? Porque não é como se as pessoas só frequentassem a faculdade por causa desta narrativa — não, as pessoas têm uma vasta gama de motivações para frequentar a faculdade! Talvez queiram uma melhor remuneração no futuro da sua carreira, ou talvez queiram a experiência de frequentar uma universidade, ou talvez estejam simplesmente muito interessadas e apaixonadas pela aprendizagem e queiram continuar a sua carreira académica! A questão é que há muitas razões pelas quais alguém pode querer ir para a faculdade, e não é de todo óbvio que esta narrativa seja exclusivamente o que leva dezenas de milhões de estudantes a ingressarem na faculdade todos os anos. Portanto, é certo que esta narrativa leva algumas pessoas, em situações marginais, a frequentar a universidade quando, de outra forma, não o fariam, mas esta narrativa também não altera a escolha de um número ainda maior de estudantes — por outras palavras, o estudante médio provavelmente não baseia a sua decisão de frequentar ou não a universidade nesta narrativa!
Tendo isto em conta, sempre que debateres moções narrativas, vale bem a pena dedicar o prep time a pensar séria e criticamente sobre duas questões:
1) Quem é que realmente dá ouvidos às narrativas? Quem é que realmente acredita nelas? É fácil assumir que, só porque uma narrativa existe, ela é universalmente apoiada — mas isso raramente é verdade! Considera a moção: "ECL a narrativa de que os grupos marginalizados devem apoiar partidos e políticos de esquerda." Não é como se esta narrativa fosse universalmente acreditada — pelo contrário, um grande número de pessoas (por exemplo, conservadores, obviamente) discordaria e contestaria esta narrativa! Portanto, sempre que elaborares argumentos sobre narrativas, pensa muito criticamente sobre quem está a basear as suas decisões em narrativas e como é que estas narrativas afetam realmente as pessoas.
Nota estratégica rápida: se quiseres argumentar sobre porque é que as narrativas alteram, de facto, as decisões que as pessoas tomam, muitas vezes, é mais fácil fazê-lo ao explicar como é que as pessoas são expostas a narrativas muito cedo na vida e, assim, a sua visão sobre as grandes escolhas da vida (ex: casar, ir para a faculdade, etc.) é moldada subconscientemente por essas crenças sociais. Por exemplo, se tiveres uma moção do tipo "ECL a narrativa dominante de que 'o bem triunfa sobre o mal' na literatura infantil", provavelmente não conseguirás argumentar que as pessoas apoiam esforços de guerra em países estrangeiros explicitamente porque se lembram de que, quando eram crianças, o Ruca, o "bom da fita", ganhava sempre, mas, sim, porque esses programas/livros/filmes moldam subconscientemente a forma como as pessoas crescem e compreendem o mundo à sua volta.
2) Até que ponto as narrativas realmente alteram as decisões que as pessoas tomam? Por outras palavras, que tipo de pessoas são tão afetadas e influenciadas pelas narrativas que mudam o seu comportamento de forma a agir de acordo com uma narrativa? Considera a moção: "ECL a narrativa da responsabilidade ambiental individual." Vale a pena considerar, no âmbito desta moção, quem é que está realmente tão persuadido pela narrativa da responsabilidade individual que se esforça (por exemplo, comprando produtos mais caros mas ecológicos, limitando formas de transporte intensivas em carbono, etc.) para garantir que está a cumprir a sua "responsabilidade individual".
Os debates narrativos são quase sempre sobre a narrativa contrafactual — ou seja, a narrativa/crença alternativa que teria surgido de outra forma. Sempre que debateres uma moção narrativa, para e pergunta-te qual é que teria sido a narrativa alternativa provável. Em seguida, constrói o teu argumento contra essa comparativa: estás raramente a debater uma narrativa isoladamente, mas, sim, uma narrativa em oposição a outra (por exemplo, seria melhor se respeitássemos ou se glorificássemos os membros das forças armadas?).
Dica: frequentemente, é útil perguntares-te como é que as narrativas surgem e quem é que molda narrativas. Em nove em cada dez casos, é muito provável que a narrativa contrafactual tenha sido moldada por forças poderosas na sociedade, uma vez que são essas as instituições que têm influência sobre coisas como os media, a imprensa, etc. Assim, a narrativa contrafactual é provável, na maioria dos casos, de ser moldada por agentes em posições de poder, que tendem a ser privilegiados e a agir no seu próprio interesse (ex: poderosas empresas de comunicação social, os homens cis brancos com influência sobre os planos de estudos académicos, etc.).
Conselhos para moções narrativas
É sempre útil pensar no que acontece quando alguém não age de acordo com uma narrativa e no que lhes acontece — e, como nota, é frequentemente aqui que se encontram os argumentos mais fortes nos debates narrativos. Por exemplo, considera uma moção como "ECL a narrativa de que o perdão é uma virtude". Podes apresentar argumentos realmente inteligentes em GOV sobre os danos que advêm quando a sociedade glorifica o perdão, mas as vítimas ainda não estão prontas para perdoar — porque são então rotuladas de vingativas, implacáveis, cruéis, etc.
Muitas vezes, há argumentos realmente bons nas rondas narrativas sobre como as narrativas são utilizadas (até como arma), seja para o bem ou para o mal. Por outras palavras, acontece frequentemente que as narrativas têm maior impacto, não à escala micro (mudando a forma como as pessoas agem individualmente), mas, sim, na forma como podem ser utilizadas retoricamente para defender a mudança à escala macro (mudando a forma como a sociedade em geral age, por exemplo, para onde vão os fundos, se se acredita nas vítimas, etc.). Por exemplo, considera a moção "EC opõe-se à narrativa de que o sucesso na vida adulta é contingente do desempenho académico". Talvez haja algum conflito na escala individual, micro, neste debate sobre como a narrativa altera as decisões quotidianas das pessoas, mas talvez haja um argumento mais interessante da OP sobre como esta narrativa pode ser utilizada por ativistas e políticos liberais ao pressionarem por coisas como melhor financiamento para as escolas públicas — por outras palavras, as pessoas podem recorrer a esta crença comum e apelar a esta narrativa para explicar porque é que precisamos de dar aos nossos alunos melhores recursos!
Lembra-te de que as narrativas também podem ser distorcidas de forma negativa para fins negativos, mesmo que isso altere o "propósito originalmente pretendido" da narrativa. Por exemplo, considera uma moção como "EC opõe-se à narrativa dominante de que obter perdão é essencial para que uma pessoa imperfeita alcance a redenção". Podes fazer aqui muitos argumentos em GOV sobre relações abusivas e sobre como abusadores tóxicos e manipuladores podem tirar partido desta narrativa e manipular as suas vítimas através da instrumentalização desta narrativa!
Lembra-te: as pessoas não são pequenos robôs-zombies sem vontade própria que vagueiam por aí, seguindo as normas/narrativas sociais. As narrativas desempenham um papel na formação das nossas crenças e opiniões, mas os seres humanos continuam a fazer escolhas com base nas suas necessidades imediatas, no ambiente que os rodeia, etc. Considera sempre quem é mais suscetível de alterar as suas decisões com base nas narrativas. Por exemplo, pensa numa moção como: "ECL a narrativa de que todos têm um único amor verdadeiro". Podes apresentar argumentos sobre tipos muito específicos de pessoas que são as mais propensas a sentir-se ligadas a esta narrativa — como stalkers, que justificam o seu comportamento obsessivo ao dizerem a si próprios que esta é a "única pessoa" para eles, ou viúvas, que se sentem particularmente angustiadas não só pela perda do cônjuge, mas também pela ideia de que não há mais ninguém para elas.
Podes frequentemente apresentar argumentos sobre como as pessoas internalizam narrativas, em oposição à ideia genérica de uma narrativa. Por outras palavras, a forma como as pessoas compreendem as crenças comuns na sociedade é frequentemente influenciada pelo seu próprio estado emocional e pela sua própria posição na vida. Por exemplo, pensa numa moção como: "ECL a narrativa de que o processo de superar uma doença (ex: cancro) é uma 'luta'". O GOV pode fazer argumentos sobre como esta narrativa é internalizada de forma prejudicial por quem sofre de doenças crónicas — por exemplo, mesmo que os entes queridos à volta de um doente queiram verdadeiramente que este faça o que é melhor para a sua própria saúde, esse doente pode sentir que a sua família espera que ele "continue a luta" de forma a não demonstrar fraqueza ou vulnerabilidade.
Muitas vezes, há grande contradição nestes debates narrativos sobre agência/autonomia: durante o prep, pergunta-te até que ponto uma narrativa pressiona as pessoas a agir de determinada forma, e pergunta-te até que ponto uma narrativa limita o acesso que as pessoas têm à informação. Para responder a este tipo de argumentos, questiona se a narrativa contrafactual é realmente uma narrativa de livre escolha ou apenas mais uma narrativa coerciva!
Check-list para o prep de moções narrativas
- Quem é afetado por esta narrativa?
- Qual é a narrativa contrafactual mais provável?
- Esta narrativa altera realmente o comportamento das pessoas? Quem são as pessoas que alteram o seu comportamento, devido a esta narrativa?
- Como é que esta narrativa pode ser utilizada como arma ou explorada por ativistas? Por políticos? Por empresas?
- O que é que acontece quando não se cumpre esta norma/narrativa? Quem é mais provável que seja incapaz ou não esteja disposto a cumprir esta narrativa?
Texto traduzido por Isabel Carqueja em homenagem a Ryan Lafferty
Texto original disponível aqui.
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