Aqui estão alguns dos argumentos mais comuns que surgem em debates sobre justiça social!
Palatabilidade — Movimentos sociais necessitam de “aprovação” por parte dos moderados de forma a conseguir mudanças. Movimentos sociais precisam de convencer pessoas a mudar o seu comportamento (ex. Para evitar micro agressões e mudar as suas opiniões sobre assuntos sociais, como a maneira que encaram grupos minoritários) e para apoiar iniciativas legislativas e políticas de acordo com os objetivos desse movimento. Movimentos têm que apelar aos moderados persuasíveis de forma a ter esta “aprovação”, o que significa que estes movimentos têm de aparentar ser o mais palatável possível para os swing votes cruciais necessários para alcançar mudança política significativa. Exemplo: EC, enquanto movimento ambientalista, abraçaria o veganismo de escolha. GOVs podem argumentar que a perceção externa sobre o movimento social se torna mais aceitável quando abandonam advocacia a favor de veganismo total, o que por sua vez aumenta a capacidade do movimento para lutar pela mudança noutro lado.
Repercussões externas — Este é, provavelmente, o argumento mais comum utilizado em debates sobre justiça social. Quando movimentos sociais advogam por políticas ou normas que são percecionadas como radicais e extremas, as pessoas respondem retaliando contra um movimento social. Este é muitas vezes um argumento genérico e geralmente fraco, mas existem algumas maneiras para o tornar mais forte. Primeiro, os media tendem a ter incentivos para maximizar receitas, o que significa que é improvável que cubram apelos pela justiça social duma forma justa ou imparcial, e são mais prováveis de ser demasiado críticos dos movimentos sociais de forma a apaziguar patrocinadores abastados com um interesse em manter o status quo. Isto também importa porque a forma como os media são prováveis de reportar sobre mudanças na advocacia social é superficial e com pouca nuance – é improvável que pessoas recebam mensagens sociais com contexto adequado sobre de que forma essas mensagens são corretas. Segundo, é muitas vezes muito fácil para os media conservadores e grupos de oposição – por exemplo, aqueles que se opõem à causa BLM – fazerem cherry-pick às piores ou mais extremas instâncias duma estratégia particular de advocacia (ex. os piores ou mais problemáticos casos da cultura de cancelamento) para desacreditar um movimento. Terceiro, mesmo que poucas pessoas retaliem contra um movimento social devido a uma forma de advocacia, muitas vezes mesmo algumas mudanças marginais no apoio podem ter impactos significativos na eficácia dum movimento social. Considerem as próximas ’22 midterms nos EUA, em que mesmo pequenos swings na afiliação política podem mudar o Senado de controlado pelos Democratas para controlado pelos Republicanos. Exemplo: ECAQ o movimento feminista devia advogar contra a norma dominante da monogamia. OPs podem argumentar que este tipo de advocacia é bastante radical e por sua vez provável de resultar em pessoas a oporem-se ao movimento feminista, particularmente porque esta advocacia é vista como ir contra valores familiares e tradição religiosa.
Divisão interna – Quando movimentos adotam valores particulares (por exemplo, uma reinterpretação particular duma religião) ou defendem certas narrativas (por exemplo, uma maneira específica de pensar sobre relações românticas), existirão inevitavelmente3 pessoas dentro do movimento que discordam desses valores ou narrativas; isto alimenta divisão interna e fragmentação dentro dos movimentos. A consequência é que movimentos se focam mais em divisões internas do que em soluções externas, e a sua perceção piora quando são vistos como “wishy-washy”, inconsistentes, e internamente conflituosos. Exemplo: ECA o uso de tumultos como uma ferramenta na luta pela igualdade social. OPs podem argumentar com razão que algumas pessoas irão apoiar meios violentos de ativismo, enquanto outro não, o que contribui para um problema de cisão interna dentro do movimento, desta forma decrescendo a saliência política e a eficácia do movimento.
Alienação de hardliners – Não é apenas que movimentos sociais a lutar por mudança resulte em backlash externo ou desacordos dentro do movimento, é também o facto de que os apoiantes mais fortes do movimento se desligam quando a advocacia entra em conflito com aquilo que eles acreditam ser a ideologia correta, o que, por sua vez, muitas vezes não está alinhado com aquilo que o cidadão médio moderado pode acreditar sem a ideologia correta. Isto é muitas vezes mais importante quando um movimento apoia uma ideologia que é mais moderada ou quando não adota conceções mais “hard-line” de teoria de justiça social, já que as pessoas que acabam por se desligar do movimento são aquelas que eram, num mundo contra factual, as mais prováveis de fazer o máximo para contribuir para o sucesso desse movimento. Exemplo: EC, enquanto movimento BLM, advogaria por reforma policial em vez de abolicionismo policial. Uma boa OP poderia argumentar que mesmo que seja mais provável que consigamos ter reforma policial em vez de abolição, ter uma posição mais moderada pode acabar por ser mais prejudicial porque aliena os apoiantes mais fervorosos da causa BLM.
Tenda grande vs tenda pequena – Equipas irão muitas vezes argumentar que precisas de um grande movimento que consiste de muitas pessoas a apoiar esse movimento para conseguir mudanças. Atualmente, é muitas vezes o caso de que é melhor ter um movimento mais pequeno, mais concentrado e mais focado. Primeiro, muitos movimentos cada vez mais lutam por uma causa através dos tribunais, como a legalização da causa LGBTQ no México que veio através do Supremo Tribunal, ou como o direito ao aborto nos EUA têm historicamente sido protegidos por um precedente do Supremo Tribunal dos EUA (ou seja, Roe v Wade) e não propiamente medidas legislativas. Segundo, movimentos sociais largos podem muitas vezes ser menos eficazes do que movimentos mais focados porque quanto mais largo um movimento, a sua comunicação tem que ser mais fraca num esforço para apelar para o maior número de pessoas possível.
Janela de Overton – Este é um argumento clássico ao argumentar por políticas aparentemente radicais ou extremistas. A “janela de Overton” refere-se às mudanças naquilo que as pessoas consideram ser extremo: quando um grupo ou partido advogam por algo que a maior parte das pessoas consideram ser extremo, outros grupos que apelam por políticas menos radicais, mas na mesma significativas parecem menos “loucos”. Como consequência, a longo prazo, as pessoas podem tornar-se -- marginalmente – mais inclinadas a aceitar mudança progressiva. Por exemplo, a advocacia comparativamente mais radical e violenta de Malcolm X ajudou a alimentar o sucesso político de Martin Luther King Jr. ao o fazer parecer mais razoável e moderado por comparação. Exemplo: ECA o eco-terrorismo. GOVs podem argumentar que quando alguns ativistas pelo ambiente engajam em violência, isto torna organizações, movimentos e manifestantes ambientalistas não-violentos parecer mais razoáveis aos olhos do público.
Cobertura mediática – É muitas vezes fácil de argumentar que consciencialização é o pré-requisito lógico para conseguir qualquer tipo de mudança, logo qualquer esforço por movimentos sociais para conseguir atenção para a sua causa é bom porque mesmo que a cobertura mediática seja negativa, isso ajuda a trazer mais atenção para assuntos importantes, o que consegue levar pessoas a ler mais e pesquisar mais sobre isso, o que, eventualmente, pode contribuir para a habilidade desse movimento social de conseguir maior adesão. Exemplo: ECAQ o crescimento do ativismo adolescente fez mais mal do que bem. OPs podem dizer que o aumento dos adolescentes nas linhas da frente de movimentos sociais trouxe mais atenção para movimentos importantes como Extinction Rebellion; isto porque é mais fora do comum adolescentes estarem na linha da frente de movimentos sociais, o que atrai mais cobertura.
Mudança de normas a longo-prazo – Quando movimentos sociais advogam por políticas ou ideologias específicas, pode ajudar a mudar a visão da sociedade sobre instituições particulares como o casamento ou a força policial a longo prazo ao iniciar discussões e gradualmente inclinar atitudes da sociedade na direção do progressismo. Exemplo: ECAQ o movimento LGBTQ deveria ativamente incorporar narrativas religiosas progressivas nas suas mensagens em detrimento de se distanciar da religião. Qualquer lado pode fazer argumentos sobre porque é que eles são melhores a mudar as perceções sobre a comunidade queer a longo prazo – por exemplo, GOV pode argumentar que ao tocar nos valores religiosos das pessoas, é mais fácil mudar as suas atitudes numa direção positiva.
Contrabalançar narrativas – Muitas vezes a sociedade explicita ou implicitamente pressiona pessoas a agir numa forma particular; por exemplo, pode ser esperado das mulheres que ajam ou se vistam duma certa maneira, ou expecta-se que minorias ajam em maneiras particulares. Quando movimentos sociais advogam por normas que divergem do status quo, providenciam uma contra força e contra-narrrativa útil contra crenças sociais dominantes, normas, expectativas, e valores que coagem pessoas a perigosos – ou, no mínimo, não-consensuais – comportamentos ou atividades. Exemplo: ECAQ o movimento feminista deveria abertamente defender auto-parcerias. Um GOV esperto poderá argumentar que como o status quo é um mundo que explicita e implicitamente pressiona mulheres e raparigas a ter relacionamentos, criar uma contra narrativa contra isso ajuda a providenciar às mulheres um sentido mais livre e digno de agência, permitindo então que escolham o seu próprio caminho na vida.
Contradição percetiva – Por vezes, quando movimentos advogam por um tipo de crença ou norma, pode parecer para as massas uma contravenção e contradição de outros valores tidos pelos mesmos movimentos. Mesmo que isso não seja sempre verdade, muitas vezes o caso é que pessoas não passam tempo significativo a educar-se nas posições dos movimentos sociais, então operam com base nos títulos de notícias e pedaços de informação, o que pode contribuir para uma crença falsa, mas difundida de que movimentos sociais estão a “esfaquear” internamente a sua própria mensagem.
Meios de transmitir mensagens – É muitas vezes útil perguntar-te a ti mesmo: como é que um movimento social pode lutar pela mudança, ou como podem espalhar uma mensagem? O caso é que muitas vezes movimentos sociais não puxam só uma narrativa – como “não se casem!” – mas juntam essas narrativas com explicações e justificações, que podem ser tão ou até mais importantes em mudar atitudes da sociedade relativamente a minorias. Exemplo: ECAQ feministas em países de maioria muçulmana deveriam advogar pela abolição de tribunais Sharia em detrimento de trabalhar para os reformar (ex. lutar por mais juízes mulheres, apoiar interpretações feministas do Corão.) Um GOV esperto pode argumentar que a maneira como feministas, num esforço para aumentar a sua palatabilidade política, irão provavelmente advogar pela abolição de tribunais Sharia será apontando as falhas estruturais dentro destes tribunais que minam os valores e crenças do Islão. Por exemplo, feministas podem apontar o facto de que a maioria dos tribunais Sharia não têm qualquer sistema de stare decisis, o que resulta em julgamentos e decisões inconsistentes que minam o valor islâmico de hisbah, ou feministas podem identificar que advogados são raramente utilizados nos tribunais sharia, o que resulta em queixosos e réus sub-educados a discutir assuntos complexos de teologia que um sistema judicial secular infundido pela religião estaria mais equipado para lidar.
Efeitos internos nos membros – Quando movimentos adotam certas posições, essas posições não afetam apenas a sociedade externa, mas podem também implicar membros dessas comunidades internamente de maneiras que danificam o seu bem-estar emocional ou mental. Exemplo: ECAQ que o movimento LGBTQ deveria abandonar toda a advocacia por controlo de armas. OPs podem argumentar que particularmente depois de eventos traumáticos como o massacre no nightclub Orlando, é bom para líderes dentro da comunidade queer serem vistos a fazer algo mais do que apenas enviar “thoughts and prayers” para as vítimas e serem antes vistos a tomar uma posição mais firme e ativa, já que isso tem mais benefícios para a comunidade queer internamente.
Texto traduzido por Mariana Carvalho em homenagem a Ryan Laffert
Texto original disponível aqui.
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