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14# Ética - Filosofia em Debate

Avisos Prévios:

  1. Estas problemáticas são complicadas, portanto, façam a vossa própria leitura e tenham uma opinião crítico em relação a tudo o que digo.
  2. Não se esqueçam que argumentos filosóficos não são adequados a todos os debates. Alguns debates podem ser puramente filosóficos, mas a vasta maioria dos debates que irão realizar na vossa carreira de debate não estarão desenhados para serem debates filosóficos. Daqui se segue que, na maioria das rondas, deve-se ter cautela na escolha de aplicação de argumento baseados em princípios/moralidade – afinal, estes argumentos tendem a possuir um ónus de prova bastante elevado e tendem a ter dificuldades em ganhar debates! TL;DR¹ - se estás a debater uma moção sobre, digamos, sanções, não escolham abrir um 1ª Governo questionando retoricamente se a nossa existência é real ou se vivemos numa simulação.
  3. A Moralidade funda-se na intuição – ou, pelo menos, argumentos filosóficos em rondas de debate provam-se melhor quando se mostra que eles se alinham com as nossas intuições morais existentes. Há razões para as dissertações sobre moralidade terem centenas ou milhares de páginas: é difícil asserir cogentemente a existência de princípios sem, em algum momento, apelarmos a valores morais de base que todos nós mais ou menos acreditamos, mesmo quando não existe uma razão clara para a crença nesses valores. Por exemplo, quase todos os debates que alguma vez participarás irão operar sob os pressupostos de que a dor é má e o prazer é bom – embora, filosoficamente, não seja evidente que estes pressupostos sejam, a priori, corretos. Daqui se segue que é bastante útil criar analogias entre argumentos morais e situações nas quais as nossas intuições morais pareçam favorecer o argumento que estás a tentar fazer. 

    Por exemplo, se estás a debater uma moção sobre se argumentos deveriam ter políticas de recrutamento compulsivo e decides correr um argumento sobre a inerente imoralidade do recrutamento compulsivo, é bastante útil criares uma analogia entre a tua
    claim² moral e instâncias nas quais o argumento se torna claramente intuitivo – podes, por exemplo, apontar para o facto que maior parte das pessoas acreditam que o bombardeamento deliberado de civis durante conflitos é imoral, mesmo se acelerar o fim do conflito, e depois estabelecer paralelos entre o recrutamento forçado (usar civis para cumprir um objetivo utilitário militar) e essa analogia (que também envolve o uso de civis para cumprir objetivos militares utilitaristas).

    Nada disto quer dizer que argumentos morais se devam reduzir a uma série de juízos, da forma é/deve ser, sobre a forma como o mundo atual funciona – pelo contrário, isto quer dizer apenas que argumentos morais são mais fáceis de engolir/digerir enquanto adjudicador quando eles se mostram compatíveis com a forma como já entendemos a moralidade.
  4. Bons argumentos filosóficos devem estar fundados e fundamentados em linguagem não-técnica. É difícil convencer um adjudicador a querer saber de um argumento que se resume a “esta política instrumentaliza pessoas ilegitimamente”, mas é muito mais fácil fazê-lo com um argumento que se rume a “isto é uma violação dos direitos das pessoas à dignidade e à liberdade”. Conceda-se, muitas vezes vais parecer um pouco dramático, mas (na minha opinião pessoal) as pessoas tendem a sobrestimar o quanto o adjudicador médio liga a jargão filosófico abstrato.

1 - Ética Normativa:

Há dois grandes ramos da Ética que aparecem em debate: (1) há a meta-ética, que interroga sobre a natureza da ética/moralidade – por exemplo, um meta-eticista pode fazer perguntas como “o que é a moralidade?” ou perguntas do género – e (2) há a Ética normativa (que estou a juntar com o campo da ética aplicada), que aparece mais frequentemente em debate. Os eticistas normativos focam-se nos problemas atuais da moralidade, mais concretamente naquilo que é correto e errado. Estas notas irão focar-se predominantemente na Ética normativa, com um bocadinho de meta-ética espalhado aqui e ali…

Mas, antes de prosseguirmos, o que é que é a moralidade sequer? Para os nossos propósitos, moralidade é o conceito de “certo” vs “errado”. Noutras palavras, qual é a coisa moralmente correta a fazer? E, talvez mais importante – qual é a coisa que não é moralmente correto fazer?

Há duas linhas dominantes no pensamento ético que tentam responder a esta questão que surgem frequentemente em debate:

  1. A Deontologia afirma que a moralidade é intrínseca: as ações possuem um valor moral inato. Immanuel Kant é o exemplo mais famoso de um deontologista.
  2. O Utilitarismo afirma que a moralidade é extrínseca: são as consequências de uma ação que determinam o valor moral de uma ação.

A questão que geralmente surge num debate é: “como é que podemos justificar um sistema moral em detrimento de outro?”

Aqui estão algumas formas de defender o utilitarismo:

  1. As proposições ontológicas/deontológicas estão muitas vezes fundadas no utilitarismo -por exemplo, dizemos coisas como “não devias mentir!” porque acreditamos que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas não mentissem!
  2. Um entendimento da ética deontológica é por definição inalcançável: ou não existe um quadro moral objetivo – e a deontologia é nula – ou esse quadro existe, mas ainda assim seríamos epistemicamente incapazes de aceder ou identificar esse quadro moral objetivo³.
  3. As conceções deontológicas da moralidade são inerentemente incertas, dado que nunca podemos saber qual sistema é moralmente preferível, ao passo que as conceções utilitaristas da moralidade estão fundamentadas no prazer e na dor, que são os únicos fatores do cálculo moral que sabemos serem certos.
  4. Muitos sistemas deontológicos dependem implicitamente da existência de uma vontade humana livre e autónoma — mas isso é bastante improvável, tendo em conta o determinismo físico e neuronal; em contrapartida, o utilitarismo é um sistema universal de moralidade que pode aplicar-se de forma independente da nossa capacidade de agência/autonomia.
  5. As ações têm valor instrumental na prossecução de resultados úteis: por exemplo, concedemos autonomia às pessoas porque isso lhes permite perseguir a sua própria definição de vida boa, o que significa que reconhecemos o valor da autonomia apenas porque ela atua instrumentalmente para alcançar bons resultados.

Aqui estão algumas formas de defender a deontologia:

  1. Intuitivamente, opomo-nos à ideia de que as consequências são o único critério relevante no discurso moral: enquanto sociedade, rejeitamos a noção de que os seres humanos são apenas agregados físico-químicos que maximizam utilidade. Não somos números numa “folha de cálculo da utilidade”, onde se pode simplesmente somar e subtrair prazer e dor para chegar a resultados morais otimizados. Os seres humanos possuem características morais intrínsecas, como a dignidade!, que requerem uma abordagem à moralidade que não esteja orientada pelas consequências! O consequencialismo é um critério terrível, porque pode facilmente ignorar essas características e justificar resultados horríveis, como a escravatura ou o colonialismo!
  2. As consequências são inerentemente incertas: é perfeitamente possível agir com as melhores intenções e, ainda assim, acabar por causar dano. Existe um número infinito de fatores — muitos deles incontroláveis — que podem assumir um papel interventivo no resultado de uma ação, ao passo que a intenção de uma ação é moralmente inviolável, porque não envolve incerteza nem especulação.
  3. Inevitavelmente, até o sistema moral mais consequencialista colapsa em deontologia. Porquê? Porque qualquer afirmação moral baseada em consequências assenta tacitamente numa premissa deontológica que não pode ser explicada exclusivamente em termos de consequências. Porque é que alguns utilitaristas, por exemplo, desconsideram o sofrimento dos animais, enquanto outros atribuem grande importância aos direitos dos animais? Porque é que valorizamos, desde logo, o prazer e a dor? Estas questões subjetivas, que são necessárias para qualquer cálculo moral consequencialista, obtêm as suas respostas a partir de fundamentos deontológicos — o que sugere que resolver as questões deontológicas relativas a uma ação é logicamente anterior a resolver as questões consequencialistas em torno dessa ação.

2 - Deontologia, explorada

Há alguns problemas deontológicos muito comuns que surgem no debate: (1) agência/autonomia, (2) instrumentalização, (3) legítima defesa, (4) distinção ato-omissão, (5) relações especiais e obrigações, e (6) direitos. Comecemos a partir pedra!

Agência: vamos abordar isto na próxima secção, por isso fiquem atentos para mais detalhes daqui a pouco!

Instrumentalização: a ideia aqui é bastante simples — não uses alguém como um meio para um fim. Por outras palavras, não “usar” alguém apenas para alcançar um bom resultado — porque, mesmo que consigas obter um bom resultado, isto não significa que é justo utilizares essa pessoa dessa forma! Isto parece bastante simples… mas porque é que é, de facto, tão errado instrumentalizar pessoas?
  1. Pela intuição, chegamos a esta conclusão constantemente! Por exemplo, tendemos a concordar que seria errado manipular alguém para fazer algo que fosse bom para nós!
  2. Por análise, também podemos chegar a esta conclusão de várias formas:
    1. Pensemos na dignidade humana: é errado usar alguém como meio para um fim porque isso ignora o valor intrínseco dessa pessoa! As pessoas são agentes morais com significado e valor; é errado subsumir esse agente moral apenas para ganho utilitário! Não estamos destinados a ser escravos do consequencialismo!
    2. Individualidade: pessoas diferentes encontram valor em coisas diferentes, e reconhecemos que os indivíduos são a única fonte intrínseca de moralidade! Daqui se segue que é errado usar outra pessoa para concretizar a tua conceção de utilidade, uma vez que ela possui um conjunto diferente de preferências e valores morais⁴
    3. Objetificação: em princípio, não podemos permitir que as pessoas sejam tratadas como meros objetos, pois isso priva-as do seu valor moral intrínseco enquanto pessoas!
  3. Segue-se uma experiência mental para ilustrar como a instrumentalização poderia manifestar-se, e por que razão a rejeitamos! Numa manhã, acordas numa cama de hospital, com soro, agulhas e todo um conjunto de equipamento médico ligado ao teu corpo. Em estado de confusão, perguntas ao médico: “o que me aconteceu? Eu nunca vim para o hospital!” O médico explica que o mais famoso e bem-sucedido debater da história — amado e admirado por milhões — ficou gravemente ferido, em risco de vida, no seguimento de uma terrível luta após uma call, contra um juiz robusto que apresentou uma fundamentação fraca para a sua decisão. Desesperados para o manter vivo, outros debaters, por todo o mundo, analisaram todos os registos médicos disponíveis e descobriram que tu, e apenas tu, possuis as características corporais necessárias para o manter vivo; consequentemente, raptaram-te e trouxeram-te, durante o teu sono, para o hospital, sem o teu consentimento. O médico acrescenta que foste ligado, através dos tubos, agulhas e equipamentos, ao debater, que depende agora do teu corpo para sobreviver. Quer escolhas permanecer ligado ou desligar-te, sobreviverás; mas, se decidires desligar-te, o debater morrerá. É moralmente permissível desligares-te do debater? É moralmente admissível forçar-te a permanecer ligado?⁵
Legítima defesa: a ideia por detrás da legítima defesa enquanto princípio deontológico é bastante simples — quando as pessoas estão sob ameaça, têm o direito moral de usar violência em resposta, mesmo quando essa violência possa potencialmente resultar em consequências prejudiciais alargadas! Porque é que tal direito existe?
  1. Pela intuição, reconhecemos a importância da legítima defesa - razão pela qual consagramos proteções legais em casos de auto-defesa
  2. Através de análise, reconhecemos que as pessoas têm direitos — e, quando esses direitos são ameaçados, têm o direito de os auto-tutelar, mesmo que isso implique violar os direitos do teu agressor, uma vez que ele fez a escolha de abdicar dos seus próprios direitos quando decidiram priorizar os seus interesses em detrimento dos teus! 
As reivindicações de legítima defesa podem operar em dois níveis:
  1. Os indivíduos podem reivindicar um direito à legítima defesa — isto é, pessoas concretas, quando são ameaçadas, têm uma reivindicação justificada a agir violentamente.
  2. As comunidades também podem reivindicar um certo grau de legítima defesa — por exemplo, quando um grupo é oprimido, ele tem uma reivindicação justificada para recorrer ao uso da violência.

Distinção ação-omissão: esta pequena gema de argumento pode ser bastante útil em debates filosóficos onde estão em causa danos morais decorrentes de negligência/inação! A maioria dos sistemas deontológicos convencionais discute a natureza moral das ações, mas, muitas vezes, optar por não agir (“inação”) também tem peso moral! A questão, contudo, é: quanto peso moral é que a inação carrega – e qual é a diferença relativa entre moralidade de uma ação e a moralidade de uma inação? Esta questão é respondida (pelo menos parcialmente) pela distinção entre ação e omissão, que sustenta que escolher fazer algo mau é moralmente pior do que deixar que algo mau aconteça ou escolher não fazer algo bom.

Porque é que reconhecemos isto? Porque escolher fazer algo implica a intenção de produzir um certo resultado, ao passo que a inação envolve um grau de intenção menor — talvez algo mau aconteça, mas não o desejaste provocar através da tua própria escolha! Mas, por outro lado, talvez não exista uma distinção relevante entre ação e inação! Porque é que poderíamos aceitar isso? Porque escolher não agir… é, contraintuitivamente,… em si mesmo, uma forma de ação! Isto está intimamente ligado à distinção entre direitos e deveres positivos e negativos. A premissa é esta: as boas ações morais são distintas das obrigações morais — isto é, tens deveres de não causar dano, mas não tens necessariamente deveres de fazer ativamente o bem; doar para a caridade é moralmente louvável, mas não obrigatório!

Relações especiais: uma das “cartas na manga” morais mais fortes surge quando consideramos as obrigações especiais ou as relações especiais que os indivíduos têm. O que é que isto significa? Nós presumimos — corretamente, claro — que todas as pessoas têm igual peso moral. Mas, na prática, não agimos totalmente de acordo com esse princípio, e isso deve-se, em grande medida, ao reconhecimento de que temos obrigações específicas para com as pessoas que nos são próximas, que não temos necessariamente para com pessoas mais distantes — não apenas em termos de espaço físico (isto é, distância), mas sobretudo em termos de proximidade moral! Por exemplo, se tivermos de escolher entre ajudar um amigo próximo ou um estranho, provavelmente escolheríamos ajudar o nosso amigo, uma vez que assumimos deveres morais específicos enquanto amigos! Isto está intimamente ligado ao conceito de reciprocidade: devemos fazer aos outros aquilo que desejaríamos que ele fizessem em relação a nós.

Mas o conceito de “relações especiais” vai para além da proximidade moral — também temos relações especiais e deveres especiais com base no papel social que desempenhamos! Por exemplo, um médico tem uma relação especial com um paciente que uma pessoa qualquer na rua não tem! Ou, por exemplo, um político tem deveres de agir de certas formas que uma pessoa arbitrariamente escolhida não tem! O que isto sugere é que os deveres morais podem variar consoante a natureza das nossas relações!

Direitos: espera lá, mas o que são direitos? São bens morais (como a liberdade face à violência, o direito à liberdade de expressão, etc.) que são inerentes à condição humana. Temos direito a eles não porque um governo o diz, mas porque são inseparáveis daquilo que significa ser um agente racional e moral. De onde vêm os direitos? Alguns filósofos poderão dizer que os direitos provêm de algum “poder superior” ou “ser superior”, como uma espécie de Deus. Outros poderão defender que os direitos decorrem da nossa dignidade e humanidade — talvez estejamos, simplesmente, dotados de pretensões a certas coisas! Em debate, há quatro formas dominantes de justificar os direitos:

  1. Intuicionismo: de forma esmagadora, a sociedade reconhece o valor e a importância dos direitos, razão pela qual os codificamos em documentos jurídicos (por exemplo, a Constituição ou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão). 
  2. Pragmatismo: talvez não exista uma razão moral abstrata e universal para protegermos direitos…, mas, ainda assim, reconhecemos que proteger os direitos humanos melhora o funcionamento da sociedade! Uma extensão disto: as pessoas valorizam os seus direitos, mesmo que tu, enquanto debater, não o faças! Portanto, conceder — e retirar — direitos tem implicações sociopolíticas muito reais.
  3. Agência: cada pessoa tem uma compreensão diferente do que constitui uma “vida boa”, e isso significa que a nossa reivindicação de direitos decorre do nosso direito de agir de acordo com as nossas (distintas!) preferências subjetivas.
  4. Derivação da personalidade: temos propriedade sobre os nossos corpos e identidades, e isso significa que os direitos decorrem da nossa soberania corporal! Devemos poder controlar o que fazemos, o que dizemos e a que temos acesso, na medida em que isso afeta o nosso corpo e a nossa identidade!
  5. Quando estiveres a defender um determinado direito (por exemplo, o direito ao esquecimento ou o direito à soberania por referendo), é frequentemente útil (i) estabelecer uma analogia entre esse “novo” direito e direitos que as pessoas já têm, explicando como ele é uma extensão natural das reivindicações morais que os indivíduos já possuem; e (ii) explicar analiticamente por que razão esse direito existe e porque é que ele importa.
  6. Quando estiveres a argumentar pela priorização de um conjunto de direitos em detrimento de outro: 
    1. Explica por que razão a intuição moral existente já favorece o trade-off de direitos que estás a propor!
    2. Explica por que razão o direito que estás a privilegiar é mais importante ou mais fundamental do que o direito que estás a preterir;
    3. Explica a razão pela qual, em certas circunstâncias, as pessoas abdicam de determinados direitos, trocando-os por outro direito ou resultado utilitário.

3 - Utilitarismo, explorado

Alguns problemas comuns que surgem em torno do utilitarismo:

Gerações futuras: importa recordar que, por mais pessoas que existam hoje, existirão muitas mais no futuro — e isto é verdade mesmo tendo em conta a queda das taxas de natalidade, porque as populações humanas tendem a multiplicar-se ao longo do tempo, o que significa que o número total de pessoas no futuro supera, em muito, o número de pessoas no momento presente. Isto tem implicações importantes para a ponderação de diferentes argumentos utilitaristas: isto é, se o nosso objetivo é simplesmente maximizar a utilidade, então focarmo-nos no futuro é provavelmente mais importante — afinal, haverá muito mais pessoas no futuro do que no presente! Além disso, é provável que as pessoas no futuro tenham, em certa medida, uma qualidade de base de vida inferior à nossa - tendo em conta a existência de ameaças globais como as alterações climáticas, etc… Isto pode ser particularmente útil ao ponderar argumentos sobre alterações climáticas!

O reverso disto? Ou seja, como argumentar a favor de proteger as gerações presentes mesmo à custa das gerações futuras?

  1. Incerteza existencial: sabemos, com certeza, que as pessoas de hoje existem. Sabemos que a sua dor e o seu prazer são reais, válidos, certos. Mas e as pessoas que viverão no futuro? Trata-se de um grupo altamente especulativo sobre o qual basear decisões! Quem sabe o que poderá acontecer, o que poderá mudar – diabos, quem sabe se a terra vai existir sequer daqui 50 anos, poderemos ter sido exterminados por um asteroide!
  2. Localização temporal: simplesmente, estamos mais bem equipados para resolver os problemas do presente do que para resolver os problemas do futuro! Sabemos quais são os problemas que enfrentamos atualmente e temos uma capacidade muito maior para os resolver — ao passo que melhorar os resultados para as pessoas no futuro é muito mais difícil e provavelmente muito mais exigente em termos de recursos!
  3. Instrumentalização: sim, é verdade, este é um argumento deontológico — mas reparem! Dadas as limitações de recursos, sempre que escolhemos priorizar as gerações futuras, estamos a causar algum tipo de dano direto ou indireto às pessoas atualmente vivas, o que significa que as estamos a usar, de facto, como instrumentos para perseguir um “futuro melhor” para gerações distantes!
  4. Utilidade marginal: de forma simples, nem toda a “felicidade” é valorizada da mesma forma — por exemplo, tornar alguém um pouco mais feliz quando já está a ter um dia muito bom não é tão significativo como tornar alguém um pouco mais feliz quando está a ter um dia muito mau! Façamos uma analogia com comida: quando temos fome, as primeiras dentadas sabem muito melhor do que as últimas! Isto é a lei da utilidade marginal decrescente: cada bem adicional proporciona menos satisfação do que o anterior! Isto pode ser muito útil em comparações — é por isso que consideramos que benefícios para os mais pobres são mais importantes do que benefícios para os mais ricos!

    Uma aplicação interessante disto surge em debates centrados no indivíduo (por exemplo, “Esta Casa preferiria a fama ao anonimato”), em que um dos lados defende os benefícios da riqueza:
    • A favor da riqueza: (i) ao longo do tempo, as tuas preferências mudam — e ter dinheiro extra é a melhor forma de garantir que podes perseguir essas preferências mutáveis, (ii) o dinheiro proporciona prazeres hedonistas, como férias, luxos, etc., (iii) mesmo que dinheiro adicional não seja assim tão valioso, a falta de dinheiro gera stress, preocupação e ansiedade que podem desgastar relações e causar sofrimento real, (iv) ter dinheiro permite-te apoiar as pessoas que amas, bem como as pessoas à tua volta e (v) o dinheiro é útil em momentos de crise inesperada, como perda de emprego, recessão ou desastres naturais! 
    • Contra a riqueza: (i) os retornos da riqueza são decrescentes; (ii) os prazeres hedonistas deixam de ser significativos a partir do momento em que te habituas a eles; (iii) mais dinheiro apenas faz com que passes a comparar a tua riqueza com a dos outros, sentindo-te relativamente inferior, (iv) a maioria das pessoas encontra o valor primário não em bens materiais, mas sim em relações interpessoais e (v) ter dinheiro faz muitas vezes com que duvides se o amor das outras pessoas por ti é genuíno!
     
  5. Cálculo de utilidade: isto não é tanto um “princípio” do utilitarismo, mas antes uma abordagem à ponderação de consequências. Ainda assim, sempre que temos argumentos concorrentes que oferecem justificações utilitaristas opostas (por exemplo, “isto causa dano económico” versus “isto promove a igualdade social”), podemos (implicitamente) pensar na comparação entre essas duas alegações perguntando: “qual destes argumentos gera um maior grau de benefícios?”

    Para responder a essa questão, há três fatores principais a considerar:
    1. Longevidade: durante quanto tempo (“escala temporal”) é que determinado impacto ou benefício dura?
    2. Intensidade: quão grande (“magnitude”) é um benefício ou impacto em termos de alcance?
    3. Certeza: quão provável (probabilidade) de acontecer é um benefício ou impacto?

Obviamente, não é assim que o debate funciona, mas se fosse possível quantificar a longevidade, intensidade e certeza de um argumento, seria possível quantificar impactos de forma muito concreta, e, então, comparar a “significância quantitativa” de diferentes argumentos.

Impacto= (Longevidade) x (Intensidade) x (Certeza)

Claramente, isto não é prático, porque não conseguimos quantificar argumentos de forma tão clara – mas a ideia por detrás do princípio é bastante significativa. Sempre que estivermos a ponderar (pesar) consequências ou impactos diferentes, podemos utilizar estas três métricas para comprar diferentes argumentos.

Texto traduzido por Luís Pereira em homenagem a Ryan Lafferty

Texto original disponível aqui.

¹ Too long, didn’t read. O tradutor decidiu manter a expressão original por questões de equivalência semântica. Podíamos ter traduzido por breve resumo e é isto que Lafferty faz de seguida.

² Tendo em conta as dificuldades de traduzir o termo no sentido que é usado em debate e, tendo em conta a prevalência do termo no discurso que flui no debate português, manteve-se o termo no inglês. Repare-se que a tradução por alegação ou reivindicação, ou até tese, seriam possíveis, mas estariam longe de captar na língua portuguesa o significado que recebem no mundo do debate.

³ Ryan Lafferty não é particularmente claro a explicitar esta objeção à deontologia. Então o presente tradutor tomou a liberalidade de clarificar aquilo que se acredita que o autor esteja a mostrar. A deontologia afirma que o valor da ação, está na ação em si mesma e não nas consequências, diferentemente do utilitarismo. Assim, para o adepto da deontologia, matar é errado, porque matar é, em si, errado. Se pensarmos na formulação do imperativo categórico de Kant – “Age de tal forma que a máxima da tua ação possa ser universalizada”- matar é errado, porque viola esta dita máxima. Mas, ainda assim não se percebe de onde é que vem o fundamento da moralidade objetiva, isto porque o valor da ação, para o adepto de deontologia é interno à ação. No caso do utilitarismo é mais fácil estabelecer um fundamento, consequências são observáveis e quantificáveis, ou seja, a métrica é muito mais clara. Intenções são internas à consciência, e, nesse sentido, dependem de uma unidade subjetiva e, por outro lado, intenções são opacas. Ou seja, é difícil termos acesso direto a intenções, porque intenções são estados mentais que gozam de relativa privacidade.

Nota de tradutor. Isto justifica o facto de muitos de nós considerarmos que é errado que alguém nos manipule a fazermos algo que eles consideram bom para nós. Porque é que outra pessoa deveria poder decidir aquilo que é, ou não, bom para mim? Esta é uma objeção comum ao chamado paternalismo e podemos encontra-la esboçado, por exemplo, no texto de Stuart Mill, Sobre a Liberdade,

Isto é uma versão curiosa do argumento do violinista de Judith Thompson. As nossas intuições costumam responder negativamente à segunda questão. Trata-se de um princípio de autonomia corporal, que no fundo é um princípio deontológico sobre a autonomia que temos enquanto agentes morais.

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