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15# Comparativas marotas e onde habitam

NO GERAL

A análise comparativa é a base de uma boa argumentação. Mas, às vezes, pontos genéricos simplesmente não funcionam — o que é especialmente verdade para as casas baixas dos debates BP, onde é preciso ter um pouco mais de cuidado com a análise comparativa com que se engaja.

Às vezes, a melhor forma de ganhar rondas é pensar muito bem sobre qual é o contrafactual ou comparativa real, e construir bons argumentos sobre essa comparativa. Neste documento, vou apresentar alguns exemplos de como isto funciona e, em seguida, dar algumas dicas gerais sobre como gerar comparativas mais complexas e inovadoras.


BOM USO DAS COMPARATIVAS

Muitas vezes, os debates parecem bastante claros: podes antecipar o clash principal e podes prever, com bastante precisão, qual o material que será apresentado. Para tornar as coisas mais interessantes, no entanto, é útil investigar se existe uma melhor comparativa a ser trazida, e fazer uma análise comparativa com base nisso.

Vamos analisar alguns exemplos práticos para que fiques com uma ideia de como isto funciona (algumas das moções que irei utilizar serão menos ortodoxas, enquanto outras serão mais diretas).

Exemplo 1

ECAQ empresas de redes sociais não deveriam censurar os discursos dos seus utilizadores.

Em muitos debates, esta discussão acontece da seguinte forma: GOV argumenta que as empresas têm incentivos questionáveis ​​e censuram os tipos errados de discurso (por exemplo, o Twitter a censurar ativistas de esquerda), enquanto OP argumenta que as empresas têm bons incentivos ​​e censuram os tipos certos de discurso (por exemplo, o Twitter a remover publicações desinformativas que espalham teorias da conspiração).

No entanto, há um nível de conflito muito mais rico e instigante a ser explorado nesta proposta.

Em GOV, pode-se fazer uma pergunta simples: mesmo que a oposição tenha razão e as empresas de redes sociais estejam a remover conteúdos como o discurso de ódio, o que acontece às pessoas banidas?

“Elas simplesmente desaparecem?”
“Dizem ‘ah, que pena, acho que não posso ser racista’?”
“Já não sou um idiota agora que a minha conta do Facebook foi suspensa!”

A resposta é óbvia: não.

Banir contas, remover publicações ou sinalizar conteúdo questionável não impede que esse conteúdo exista — apenas muda o local onde é publicado.

Quando alguém é banido do Twitter, não deixa de ser nazi — apenas se torna nazi, digamos, no 4chan. Quando a publicação de alguém no Facebook é advertida, essa pessoa não renuncia às suas ideologias racistas — apenas as reforça com mais intensidade, por exemplo, no Gab.

Esta comparativa pode ser útil para GOV, uma vez que é possível argumentar sobre o porquê de estas plataformas alternativas serem piores — são menos regulamentadas, mais radicais e têm maior probabilidade de encorajar as pessoas a envolverem-se em atividades violentas ou criminosas.

Exemplo 2

EC aboliria todas as barreiras, tarifárias e não tarifárias, ao livre comércio.

Muitas pessoas vão olhar para esta moção e presumir que se trata apenas de um debate sobre o comércio livre — o comércio livre é bom ou mau?

Este é o material mais óbvio e tentador para usar com confiança nesta ronda, mas provavelmente não é o mais estratégico.

Por quê? Pensa na comparativa: a OP defende o status quo.

Se o debate fosse sobre a miríade de benefícios ou malefícios que acompanham o comércio livre, esperaríamos ver a OP defender um mundo sem a presença em grande escala do comércio livre.

“Mas o que é isto?”, perguntam vocês. “A maioria dos países no status quo pratica o comércio livre?”

*Surpresa da plateia*

Para sermos claros, a grande maioria das nações (exceto, talvez, a Coreia do Norte) pratica comércio transnacional regional — ou mesmo global.

  • Os EUA são signatários do USMCA.
  • Singapura faz parte da ASEAN.
  • O Brasil é potência dominante no Mercosul.
  • Estados da Europa do Leste fazem parte da União Económica Euroasiática.
  • A China lidera inúmeros acordos bilaterais através da Belt and Road Initiative.

Tudo isto acontece dentro do status quo.

Então, o debate é mesmo sobre o valor do comércio livre? Talvez. Mas, fundamentalmente, trata-se do tipo de comércio livre que temos.

No mundo de GOV, eliminam-se coisas como tarifas comuns impostas a produtos estrangeiros — e isso significa que se transita de um mundo de livre comércio regional para um mundo de livre comércio global.

Já no mundo da OP, ainda existe livre comércio, mas ele opera sobretudo a um nível regional.

A identificação desta comparativa pode ser incrivelmente útil para ambos os lados.

Exemplo 3

EC, enquanto organização beneficente que procura efetivamente tornar o mundo num lugar melhor, rejeitaria doações de dadores imorais.

Uma das melhores perguntas que deves colocar a ti próprio numa moção como esta é:

“Se uma organização beneficente recusar uma doação, como reagirá o dador?”

Nesse debate, poderias usar uma boa comparativa enquanto OP.

Poderás dizer algo como:

“Se algum ricaço arrogante quiser doar para melhorar a sua imagem, provavelmente fá-lo-á de qualquer forma — a questão é apenas: para que organização está a doar?”

Isto permite-te direcionar melhor o debate em OP:

Dado que os doadores imorais estão a doar para ambos os lados do debate, uma organização beneficente realmente boa e eficaz poderia muito bem pegar nesse dinheiro e fazer coisas boas com ele, em vez de permitir que esses dadores ainda colham benefícios à sua imagem pela filantropia caritativa.

Exemplo 4

ECAQ A China deveria abolir todas as restrições à migração interna, por exemplo, o sistema hukou¹.

Muitos debates sobre esta moção podem centrar-se na questão intuitiva de saber se a migração controlada pelo Estado é boa ou má.

Mas o GOV poderia optar por fazer uma comparativa mais interessante:

Em muitos casos, a intensidade da pobreza na China rural é tão grande que as pessoas abandonam as províncias rurais para irem para as cidades — independentemente de terem ou não permissão formal para o fazer.

Por outras palavras, se uma família é pobre e depende de agricultura de subsistência que não funciona, pode muito bem decidir mudar-se para uma cidade mesmo sendo considerada “ilegal”.

A claim intuitiva de GOV é que abolir o sistema hukou significa que essas pessoas não precisam de viver com medo nem ficam excluídas de serviços sociais essenciais.

Exemplo 5

ECAQ o Botswana deveria acabar com a política “disparar para matar”².

Vamos supor que eras 2OP nesta moção e querias distorcer o contrafactual/comparativa.

A política de “disparar para matar” permite que guardas florestais anti-caça furtiva disparem contra suspeitos.

GOV provavelmente argumentará:

  • Os guardas agirão de forma precipitada.
  • Poderão matar inocentes.
  • Poderão agir de forma discriminatória.

Mas a 2OP pode reconhecer algo importante:

Os problemas identificados por GOV não desaparecem magicamente quando a política é abolida.

Se um guarda florestal acreditar que está em perigo, é provável que dispare primeiro independentemente da legalidade da política.

Isto significa que os guardas provavelmente “disparam para matar” em ambos os lados do debate.

A diferença é:

  • No mundo GOV, o guarda regressa e relata honestamente o ocorrido.
  • No mundo OP, o guarda pode sentir necessidade de encobrir o incidente.

Este é um caso em que uma interpretação inteligente da comparativa pode gerar pontos muito interessantes e inovadores.


TRÊS COISAS IMPORTANTES

  1. O facto de uma equipa afirmar que algo é a comparativa não significa que não possa ser contestado.

  2. O facto de uma comparativa parecer inovadora ou interessante não a torna automaticamente vencedora.

  3. Não coloques todos os teus ovos no mesmo cesto. É importante ter argumentos que funcionem mesmo que a tua comparativa principal seja rejeitada.


GERANDO (E JUSTIFICANDO) COMPARATIVAS INUSITADAS

A conclusão disto é que utilizar comparativas interessantes/inovadoras pode gerar argumentos interessantes e aumentar significativamente as hipóteses de vencer rondas.

Algumas estratégias:

1. Argumentar que X acontecerá em ambos os lados da casa

Em quase qualquer moção do tipo:

  • “Vamos proibir X...”
  • “Vamos legalizar X...”

... podes frequentemente argumentar que X continuará a acontecer de qualquer forma.

Exemplos:

  • “EC legalizaria a prostituição.”
    A prostituição acontece de ambos os lados, mas pode ser mais segura e regulada quando legal.

  • “EC permitiria apagar memórias específicas.”
    Mesmo sem a tecnologia, pessoas traumatizadas tentarão esquecer memórias através de álcool, drogas ou autodestruição.

  • “EC proibiria jogos de apostas.”
    Os jogos continuarão a existir mesmo proibidos.

2. Reformular a comparativa do outro lado

Muitas vezes, é útil pensar:

“Existe uma forma de reformular a comparativa do outro lado para enfraquecer os seus benefícios?”

Exemplos:

  • “EC aboliria as fronteiras.”
    Mesmo com fronteiras abertas, muitas pessoas não emigrariam devido a custos, laços sociais e medo da mudança.

  • “Empresas deveriam obrigar gestores a trabalhar em cargos inferiores.”
    Mesmo no status quo, empresas já têm incentivos fortes para tratar trabalhadores de forma justa.

3. Pensar como os atores reais reagiriam

Durante o prep time, coloca-te na posição dos principais intervenientes.

Pergunta:

“Como governos, corporações ou indivíduos responderiam realmente a esta moção?”

Muitas vezes, comparativas úteis surgem apenas ao pensar realisticamente sobre comportamento humano.


NOTAS

¹ Sistema hukou: sistema chinês que impõe restrições à migração interna e limita acesso a serviços sociais.

² Política “disparar para matar” no Botswana: política anti-caça furtiva que autoriza guardas florestais a dispararem contra suspeitos armados.

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