Testes contra viés de casas altas
Regra dos 5¹
Existe uma regra geral em que uma moção é suficientemente extensa para ambos os lados, quando consegues pensar em 5 argumentos para cada bancada durante um prep time. No entanto, isto não é uma ciência exata. Algumas moções podem ter apenas três argumentos por bancada e ainda assim serem consideradas suficientemente extensas, se os argumentos forem suficientemente pesados em termos de análise, de modo que não se possa esperar realisticamente que a metade superior os apresente todos.
Para que funcione bem, a regra dos 5 tem vários critérios a que um argumento tem de obedecer para que seja justo para o debate e para as casas baixas. Para testar as moções, as CAs devem simular as condições de debaters num torneio, demorando 15 min a testar. Pelo mesmo motivo, também é aconselhável que o teste seja feito pelos membros da equipa que não sugeriram a moção a ser testada:
- Não podem ser quaisquer 5 argumentos
- Pesagem – A existência de uma extensão por si só não é suficiente para dar às segundas casas uma chance justa de vencer se as extensões forem significativamente mais fracas do que os argumentos mais simples que as primeiras casas poderão utilizar.
- Independência – Não basta que os argumentos sejam diferentes, também não devem depender uns dos outros ou de um mesmo encadeamento lógico. Um erro comum é identificar muitos impactos diferentes como extensões separadas, quando todos eles partem da mesma análise, tornando derivativa uma segunda casa que os corra.
- Não serem contraditórios – Quando as primeiras casas assumem uma posição, as segundas não podem ir diretamente contra a posição assumida pelas primeiras casas no debate. Logo, todos os argumentos que apresentar nos testes devem ser logicamente consistentes entre si.
- Nível de análise semelhante – Tempo é escasso no debate. Se a metade superior tem muitos argumentos fáceis de defender e pode ter tempo para apresentar três casos, bem como refutações e ponderações, enquanto a metade inferior fica apenas com extensões muito complexas que exigem grande habilidade e muito tempo para analisar, isso coloca a metade inferior em desvantagem injusta.
- Nível de acessibilidade semelhante – Alguns CAs cometem um erro quando pensam em moções, ao pensar: «Eu saberia o que acrescentar a isto, portanto é profundo». A maioria dos CAs são experientes e têm um interesse único nos temas das suas moções, pelo que sabem muito sobre elas. Se os argumentos básicos são muito acessíveis e as extensões não, isso penaliza injustamente as segundas casas, por falta de conhecimento especializado que não era exigido às primeiras casas. Os CAs devem considerar como o debate vai acontecer em todas as salas do torneio, e não apenas nas salas superiores.
Salvaguarda Definicional
As equipas da metade superior podem prejudicar o debate das segundas casas, seja acidentalmente ou deliberadamente. Um modelo mal pensado pela OG, ou um OO que não consegue desafiar um squirrel², uma concessão feita que estão obrigados a aceitar, ou uma definição fechada do debate que exclui as segundas casas.
Há muitas maneiras pelas quais as equipas da metade inferior podem ser injustamente penalizadas pelos erros da metade superior. É nossa responsabilidade enquanto CA evitar isso, de forma que todas as equipas sejam adjudicadas justamente, e especialmente para que as segundas casas sejam adjudicadas pelo seu mérito, e não por restrições feitas por terceiros.
Para isso, devemos ter em conta que o debate na nossa cabeça não será o debate em todas as salas do torneio:
- Pensar em todas as diferentes maneiras de definir um modelo para a sua moção. Todas elas geram um debate viável que é justo para ambos os lados? É suficientemente extensa? Se alguma delas for impossível de defender ou restringir o debate injustamente, talvez seja melhor reformular a sua moção. Essa consideração é importante nas primeiras rodadas, quando uma equipa potencialmente forte pode ser eliminada por um modelo mal elaborado.
- Considerar como a moção e o debate acontecerão em salas de baixa pontuação.
- Perguntar-se como e que uma equipa poderia partir a moção? Embora se peça às equipas para considerarem «o espírito do debate», equipas que querem muito ganhar irão atravessar o debate. É necessário garantir que as equipas não possam usar silver bullets³ nas primeiras casas
Testes contra viés de bancada
Burdens duplos
Um burden duplo acontece quando um lado do debate tem de ganhar todos os clashes para ganhar o debate, enquanto que o outro lado só precisa de ganhar um. Por exemplo, uma moção “ECAQ X foi bem-sucedido nos países A, B e C” pede ao governo que mostre porque é que X foi bem-sucedido em três situações diferentes, mas a oposição pode só escolher uma dessas e provar porque é que não funciona, o que cria um ónus de prova desequilibrado.
Detectar burdens duplos é simples, basta fazer um prep da moção e entender quantas coisas é que cada lado tem de provar para conseguir ganhar o debate. Outra regra para prevenir isso é evitar palavras como “sempre”, “nunca” ou “todos” na formulação da moção.
Silver bullets
Silver bullets são extremamente raras nos debates, mas extremamente poderosas. É um argumento que, se comprovado, é imbatível. As CAs devem verificar não só se ambos os lados têm argumentos fortes a seu favor, mas também se nenhum deles tem um argumento demasiado forte que se sobreponha a todos os outros.
Viés de realidade
Há ideias que são só boas/más. Gostamos de pensar que, se um tema é discutível, tem apoio na vida real ou altera o status quo, ele não pode ser apenas bom ou mau. No entanto, nem tudo que é controverso é justificável. Obviamente, não se deve interpretar demais isso: nenhum de nós detém a verdade objetiva, e a nossa opinião pessoal não é indicativa do mérito de uma ideia.
No entanto, é bom lembrar o seguinte, que também se aplica a que tipo de moções podem ser boas/más: o debate tem fim. A realidade, nem sempre. Muitas vezes, uma ideia é realmente ótima, mas simplesmente não pode ser implementada na vida real devido ao lobby, barreiras tecnológicas, etc. Debates que começam com «Assumindo que é viável» devem ser um sinal de alerta para isso, tal como debates sobre regulamentações ambientais ou tecnologias que ainda não existem. Isso não é um motivo para não fazer uma moção sobre o tema, mas apenas para parar e pensar intuitivamente se é uma boa/má ideia? Muitas vezes, há motivos pelos quais as coisas ainda não aconteceram e que devem ser considerados pela CA.
Repetição de moções
Não usar moções se tiverem sido usadas recentemente, ou cujos temas tenham sido prevalentes em torneios recentes. Isto não se deve só a questões de criatividade e renovação de sets, mas também porque moções repetidas são, de facto, menos equilibradas, por muito boas que sejam.
Quando algumas equipas têm uma vantagem injusta por razões arbitrárias, como por exemplo, por virem de um circuito em que usaram uma moção X recentemente, ou por terem visto outra equipa ganhar por muito a partir de uma determinada posição, torna-se tendencioso a seu favor
Quebradores de moções
As equipas querem ganhar mais do que gostam de “debater o espírito da moção”. Para isso, podem tentar abusar de lacunas nas suas moções para tornálas impossíveis de vencer para o banco adversário, ou mudar os burdens de forma a desequilibrar o debate. Sendo difícil de testar, a forma mais eficiente de encontrar estas táticas é ao tentar ativamente partir as suas próprias moções, ou enviá-las a um testador externo manipulador em quem confia para encontrar lacunas.
Realisticamente, para a maioria das moções, não poderá dedicar muito tempo a tentar encontrá-las, mas vale sempre a pena verificar na sua preparação da moção se não consegue encontrar uma forma óbvia de quebrar o debate. Também nunca se pode ter a certeza de que elas não existem se não as encontrou. No entanto, existem algumas orientações úteis para saber em que situações ocorrem:
- São mais comuns em modelos, definições e contrapropostas, pois estes dão às equipas mais margem para desviar o debate da sua intenção original.
- Surgem frequentemente sob a forma de uma oposição/proposta «suave». Ao mitigar o debate para impactos marginais, as equipas tentam frequentemente mostrar que a única diferença real no debate é aquela que é impossível de se opor/propor. Tenha cuidado com moções que parecem ter um dano escorregadio associado a elas e um benefício óbvio, mesmo que pequeno.
- São geralmente usados por equipas experientes e estratégicas e, portanto, são mais comuns nas rodadas finais.
- São mais acessíveis quanto mais margem de manobra as equipas têm para mudar o debate, tornando-os mais prováveis em debates que não são muito bem definidos ou com um contrafactual pouco claro. Moções sobre ficção científica ou «EC Prefere um mundo», por exemplo, correm mais risco de ter lacunas e requerem mais testes contra motion breakers.
- São mais prováveis quando o modelo é definido pela oposição (por exemplo, quando a moção começa com as palavras “EC não faria X”), ja que essas moções podem ser abusadas para colocar um onus assimétrico sobre o governo. Quando o 1GOV define um modelo, ela fica vinculada a ele, tendo de se ater a uma única proposta. Em contrapartida, quando a OO define a alternativa, as regras não a vinculam da mesma forma. Ela pode argumentar a favor de uma miríade de maneiras diferentes de implementar a política que defende e só precisa provar que pelo menos uma delas é boa. Além disso, isso coloca a OG em desvantagem — todo o PM pode acabar sendo irrelevante, dependendo de como a oposição o define, e eles têm um enorme fardo de se opor a vários modelos possíveis ao mesmo tempo.
Testes Externos
É comum que uma CA se feche na sua bolha de pensamento ao olhar para moções, o que afeta a sua capacidade de olhar para elas de forma crítica ou de conseguir reconfigurar moções. Isto acontece quando se fala de uma moção durante demasiado tempo, o que torna difícil olhar para uma moção como se fosse nova. Para combater isso, é comum enviar essas moções para testar a alguém externo à CA, alguém que seja:
- Experiente enquanto CA e de confiança da CA Team
- Não seja orador nesse torneio (idealmente que não vá adjudicar a esse torneio)
- Que não seja especialista/tenha conhecimento nicho sobre o tema da moção – o objectivo é testar a acessibilidade da moção para o debater médio
- Que pense de forma diferente do resto da CA – não tenha os mesmos vieses da CA
Texto traduzido por Frederico Oliveiro do texto original redigido pela CA Team do Madrid EUDC 2021
Notas do tradutor:
¹ Uma alternativa usada por algumas CAs é a regra dos 3 clashes, em que 5 argumentos precisam de ser distribuídos por 3 clashes diferentes no debate. Esta ajuda a garantir que os argumentos não são contingentes uns aos outros, e tenham chances de serem considerados vencedores.
² Termo que descreve uma definição ou modelo não razoável. Por exemplo, na moção "EC retiraria o direito de voto a prisidiários", se um governo modelar que apenas irá retirar o direito de voto a prisidiários com menos de 18 anos está a cometer squirreling.
³ Silver bullets sao argumentos que vencem o debate automaticamente quando comprovado
Comments
Post a Comment